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segunda-feira, 9 de junho de 2014

Desconhecidos

A - Noite
B - Lua minguando
A - Você viu?
B - Cheia?
A - Tava enorme.
B - Em cima da caixa d´água
A - Do prédio?
B - Prefiro chamar de terraço
A - Qual seu signo?
B - Importa?
A - Não sei porque perguntei
B - Touro
A - Não entendo nada. Também?
B - Ih, isso é bom sinal?
A - Do universo?
B - Me dá um beijo?
A - Oi?
B - É. Para a gente descobrir!
A - Não entendi a associação
B - E se isso for mesmo um sinal do universo? Vamos perder essa oportunidade?
A - To com pena da lua
B - Ela adora assistir
A - Usada aleatoriamente por você!
B - E você está aqui porque?
A - Vim tomar um ar
B - Boa desculpa, mas não tão boa quanto a lua
A - Posso falar das estrelas também
B - Dizem que tudo é poeira delas.
A - Eu ia falar das três marias...
B - Um grupo de pesquisadores na Alemanha, liderado por um tal Shaw Bishop, investiga restos de supernova em fósseis de bactérias pré-históricas. Tipo traços de "ferro extraterrestre" que chegaram junto com destroços radioativos de uma estrela!
A - Que romântico!
B - Somos um pouco extraterrestres.
A- Puts!
B - Já parou pra pensar que o princípio de uma bomba nuclear é o mesmo que o big bang? Quer dizer, a vida surge do atrito é um paradoxo. Se a gente fosse passear por aquelas lindas nebulosas, seriamos transformados numa nuvenzinha de hidrogênio, ozônio e monóxido de carbono!
A - Você é bom nisso!
B - Serio, dedicado, obsessivo, radical e um pouco arrogante. Bem taurino.
(pausa)
A - Tenho que ir!
B - E meu beijo?
A - Fica para a próxima E.T.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Não entre em pânico!

    Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.
    Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitiva que ainda acham que relógios digitais são uma grande ideia.
    Este planeta tem - ou melhor, tinha - o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos.
    E assim o problema continuava sem solução. Muitas pessoas eram más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.
    E então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.
    Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a ideia perdeu-se para todo o sempre.

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    Por uma curiosa coincidência, "absolutamente zero" era o quanto o descendente dos primatas Arthur Dent suspeitava que um dos seus amigos mais íntimos não descendia dos primatas, sendo, na verdade, de um pequeno planeta perto de Betelgeuse, e não de Guildford, como costumava dizer. Tal suspeita jamais passara pela cabela de Arthur Dent.
    Esse seu amigo havia chegado ao planeta Terra há uns 15 anos terráqueos e se esforçara ao máximo no sentido de se integrar na sociedade terráquea - com certo sucesso, deve-se reconhecer. Assim, por exemplo, ele passara esses 15 anos fingindo ser um ator desempregado, o que era perfeitamente plausível. Porém cometera um erro gritante, por ter sido um pouco displicente em suas pesquisas preparatórias. As informações de que ele dispunha o levaram a escolher o nome "Ford Prefect", achando que era um nome bem comum, que passaria desapercebido.
    Não era alto a ponto de chamar atenção, e suas feições eram atraentes, mas não a ponto de chamar atenção. Seus cabelos eram avermelhados e crespos e ele os penteava para trás. Sua pele parecia ter sido puxada a partir do nariz. Havia algo de ligeiramente estranho nele mas era algo muito sutil, difícil de identificar. Talvez os olhos dele piscassem menos que o normal, de modo que quem ficasse conversando com ele algum tempo acabava com os olhos cheios d´água de aflição. Talvez o sorriso dele fosse um pouco largo demais e desse a sensação desagradável de que estava prestes a morder o pescoço de seu interlocutor.
    Para a maioria dos amigos que fizera na Terra era um sujeito excêntrico, porém inofensivo: um beberrão com alguns hábitos maio estranhos. Por exemplo, ele costumava entrar de penetra em festas na universidade, tomar um porre colossal e depois começava a gozar qualquer astrofísico que encontrasse, até que o expulsem da festa.
    As vezes ele ficava desligado, olhando distraído para o céu, como se estivesse hipnotizado, até que alguém lhe perguntava o que ele estava fazendo. Então, por um instante, Ford ficava assustado, com um ar de culpado, mas logo relaxava e sorria.
- Ah estou só procurando discos voadores - brincava, e todo mundo ria e lhe perguntava que tipo de discos voadores ele estava procurando - Dos verdes! - ele respondia com um sorriso irônico, depois ria às gargalhadas por alguns instantes e daí corria até o bar mais próximo e pagava uma enorme rodada de bebidas.
    Essas noites normalmente terminavam mal. Ford tomava uísque até ficar totalmente bêbado, se encolhia num canto com uma garota qualquer e dizia a ela, que na verdade a cor dos discos voadores não tinha muita importância.
    Depois cambaleando maio tonto pelas ruas, de madrugada, com frequência perguntava aos policiais que passavam como se ia para Betelgeuse. Os policiais normalmente diziam algo assim:
- O senhor não acha que é hora de ir para casa?
- É o que estou tentando fazer, meu chapa, estou tentando - era o que Ford semprerespondia nessas ocasiões.
    Na verdade, o que ele realmente procurava quando ficava olhando para o céu era qualquer tipo de disco voador. Ele falava em discos voadores verdes porque o verde era a cor tradicional do uniforme dos astronautas marcantes de Betelgeuse.
    Ford Prefect já havia perdido as esperanças de que aparecesse um disco voador porque 15 anos é muito tempo para ficar preso em qualquer lugar, principalmente num lugar tão absurdamente chato como a Terra.

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Escuridão total.
- Tome, coma um pouco de amendoim. Se você nunca passou antes por um raio de transferência de matéria, deve ter perdido sal e proteína. A cerveja que você tomou deve ter protegido seu organismo. Estamos a salvo
- Ah, bom
- Estamos dentro de uma pequena cabine de uma das espaçonaves da Frota de Construção Vogon.
- Ah, pelo visto você esta empregando a expressão "a salvo" num sentido estranho que eu não conheço. Como é que viemos parar aqui?
- Pegamos uma carona
- Espera ai! Você está me dizendo que a gente levantou o polegar e algum monstrinho verde de olhos esbugalhados pôs a cabeça para fora e disse "Oi gente, entrem ai que eu deixo vocês na saída do viaduto"
- Bem , o polegar na verdade é um sinalizador eletrônico subeta, e na saída do viaduto, no caso, é a estrela de Barnard, a seis anos-luz da Terra; ms no geral é mais ou menos isso
- E o monstrinho de olhos esbugalhados?
- É verde, sim
- Tudo bem. Mas quando eu vou voltar pra casa?
- Não vai - encontra o interruptor e acende a luz
- Minha nossa! Estamos mesmo dentro de um disco voador?
Olham ao redor
- Bem, o que você acha?
- Meio bagunçado, né?

(Fragmentos retirados do livro "O guia do mochileiro das galáxias" de Douglas Adams)

"Mistérios Insondáveis" de Alcione Araújo

O poder da razão nos enche de genuíno orgulho. É extraordinária a capacidade humana para compreender o mundo em que vivemos - da minúscula intimidade da matéria aos espaços infinitos do cosmo, da inteligência artificial ao uso das células-tronco. É tamanha a empolgação com a capacidade de compreender as miraculosas elaborações da razão que, às vezes, somos instilados a crer que não há limites para o conhecimento - o que, de fato, parece não existir - e nós alçamos a extremos nos quais a soberba ultrapassa a própria razão. 

Inflados pela onipotência, passamos a viver como senhores da natureza e deuses da razão. Nesses momentos, humildade deixa de ser apenas uma virtude e passa a ser uma necessidade - até para ajustar pesos e contrapesos e restaurar o equilíbrio. 

A despeito das fantásticas conquistas da ciência, a espécia humana convive com mistérios tão insondáveis quanto essenciais à vida. É quase alarmante que a vida siga seu curso sem que possamos balbuciar qualquer verdade sobre questões que nos acompanham do nascimento à morte.

O nascimento, para começar é um mistério. Nada sabemos como e quando a vida se instala. Além do absurdo acaso implícito num determinado espermatozoide, entre milhões, fecundar o ovo e resultar num ser e não noutro, inteiramente distinto - o que nos define como um acaso da natureza, ao qual se junta o aleatório da programação celular detectado pela biologia genética. Somos, enfim, um acaso do acaso. Ademais, quase todo o saber clínico sobre o nascimento apoia-se em estatísticas e estudos de caso - não no conhecimento do momento decisivo onde tudo começa. Vivemos no mistério do nosso surgimento.

Noutro extremo, a morte - sabemos o que leva ao colapso de órgãos e sistemas, mas nada sabemos sobre o que ocorre após o repouso cerebral - instala-se nos inescrutável domínio da fé. No âmbito do conhecimento, é puro mistério. Sabemos que a vida, tudo o que somos e deixamos de ser, se dá entre o nascimento e a morte, nossos limites. E nada sabemos sobre os próprios extremos determinantes da vida entre si.

Mencionei a seara inescrutável da fé - eis outro mistério. Sabemos que muitas pessoas têm fé - vários tipos, em vários revelações -, mas não sabemos dizer o que seria a fé. Santo Agostinho, que a chamava de esperança, considerava-a um privilégio - ou seja, não é para todos! E reiterava essa ideia como quase um paradoxo. Dizia o santo das Confissões que quem entendeu Deus está longe da verdade, porque Deus não é acessível pela razão. Que mistério a fé! Sem ironia, para ter fé é preciso crer, antes, na fé - que não se dispõe ao entendimento. 

Mais prosaico e rotineiro, porém não menos misterioso e intrigante, é o sonho. Desde as remotas civilizações nos primórdios da espécie que o homem quer entender os sonhos. O Talmude, o Corão e a Bíblia estão repletos de interpretações dos sonhos. No início do século XX, Freud, com A interpretação dos sonhos, lançou alicerces da teoria da subjetividade. Mas é uma interpretação entre outras. Dormimos todas as noites com o desconhecido sonho.

E o que sabemos do amor? Como surge, de que se constitui? Sabemos que são complexos impulsos subjetivos, vindos de recônditos obscuros, mas não conseguimos defini-lo. Pode-se se escolher, com critérios da razão, um marido, uma esposa, pode-se criar parcerias e conveniência e pode-se acomodar afinidades, mas não pode escolher a quem se ama. O amor brota por si e como um mistério.

Há outros, muitos outros, mistérios que nos cercam. Lembro só mais um, com o qual convivo dia e noite: a arte. Para o que é a arte, de que se constitui e a que serve, não há respostas conclusivas, todas giram em torno de conceitos - talvez pela falta de uma teoria geral da emoção, outro mistério! Por lidar com a criação, a arte propõe paradoxos, que não respondem, mas nos distraem do seu próprio mistério, como o de Jean Cocteau: "A arte é indispensável, se ao menos soubéssemos para quê."

(Crônica escrita por Alcione Araújo para o jornal Estado de Minas, retirada do livro "Cala a boca e me beija")

quinta-feira, 5 de junho de 2014

de Carol

Não é impunemente que se nasce mulher.
E mulher artista.
Fico admirada
Boquiaberta

Estarrecia
De cara
Sem entender
Aonde estaria Florbela se não escrevesse?
E Virginia?
E Clarice? Por onde esteve?
Yaioi afirma que se não fosse a sua arte ela já teria se matado ha muito tempo.
Florbela o fez, Virginia o fez.
A Clarice morrer com um câncer no ovário se fosse ficção seria uma forçação de barra.
A Louise sobreviveu.
A Louise sobreviveu.
A Louise sobreviveu.
A Marina sobreviveu.
A Marina sobreviveu.
A Marina sobreviveu.
A Marina fala que o suicídio é um crime contra a vida
o artista não deve cometer suicídio
o artista não deve cometer suicídio
o artista não deve cometer suicídio
O meu tio cometeu suicídio
O meu tio não era artista.
Ou era, não sei.
Ele tocava piano.
Não sei.
Ele tinha 19 anos
Ele poderia vir a ser um artista.
Se ele viesse a ser um artista será que ele não teria cometido suicídio?
Se ele viesse a ser um artista será que ele teria cometido suicídio?
Suicídio
Suicídio
Suicídio
É pra dentro.
É bem pra dentro.
Ferida da alma.
Profunda
O corpo não tem mais razão de estar.
Aqui.
Agora.
Mas é agora.
E depois?
No momento da queda, ou um segundo depois de tomar o remédio
Esse segundo já não é agora
É depois.
Será que nesse segundo a camisa dele não podia agarrar num galho de árvore
Ele ficar preso de cabeça pra baixo no chão
Começar a chorar e agradecer
Agradecer muito por ter ficado vivo
Naquele segundo
ele se sentir profundamente agradecido por estar vivo
e depois ter um ataque de riso
olhar pro irmão que estava olhando para ele da janela do apartamento
e pedir: por favor  me tira daqui
ME TIRA DAQUI!
O irmão sem saber como agir, chorando, pega uma escada gigantesca e tira o irmão dele de lá.
Eles se abraçam
E a vida continua vida.
Sem o suicídio carimbar essa família.
O suicídio carimba.
Flor bela de alma da conceição espanca
De alma.
Alma.
Aonde a alma dói.
Ai!
Ai!
é um lugar...
Infinito (para dentro)
Uma tortura
E como ser depois de vir do coração?
De tirar de dentro do peito a lúcida verdade
O sentimento.
No seu ponto de partida
O homem só tem instintos
Mais avançado e corrompido
Só tem sensações
Mais instruído e purificado
Tem sentimentos
O sentimento então é uma evolução da sensação.
Quirom é um planeta?
A sentimentação
O ser neutro virou um ser sentimentado
Enfim…
Quirom é um satellite
Assim como a Lilith
É mutável
Quirom mostra a ferida da alma.
Filho de cronos com uma ninfa
Era metade homem metade cavalo
Tinha o poder de curar as pessoas
Mas tinha uma grande ferida na alma
ter sido abandonado por sua mãe por ela ter vergonha de sua condição.
Um dia sem querer, leva uma flechada na pata traseira
E fica para sempre a mostra uma ferida com um cheiro terrível
Justamente no lugar em que ele mais ressentia
Sua parte cavalo.
Eu não sei onde está o meu quirom
Preciso saber
Urgente
Mas a Lilith o astrólogo me disse
A progesterona
Uma progesterona que estava concorrendo comigo- ele disse
Agiu como um louco- ele disse- andou para um lado e olhou para outro.
Ai! Ai!
Ferida na alma!
Quiron!
Quando tem Lilith é para se ficar atento
Progesterona pede atenção.
A Progesterona que é produzida no ovário.
Ferida na alma.
Quantas feridas na alma vai se acumulando no caminho
Desse grande movimento
dentro desse planeta
que órbita
nessa galaxia.
Galaxia
Via Láctea
Outras vias
Muitas outras vias…
Ser supremamente pessoal para ser coletivo.
Ser supremamente pessoal para ser coletivo
Ser supremamente pessoal para ser coletivo.
Não é impunemente que se nasce mulher.
E mulher artista.
O artista é um traumatófilo
Elementar lhe dar com a falta
Elemento se dá com falta.
Nós existimos principalmente pela nossa ausência
Isso é da Louise
Bourgeois.
O trauma
Experiência psicológica muito agressiva
Os soldados quando voltavam da primeira Guerra
Não conseguiam…
Não conseguiam…
E como ser depois de vir do coração?
O pó, o nada…
Não conseguiam falar o que viveram
Falar
Acessar
A ferida da alma
Eu não lembro
Como foi quando meu pai saiu de casa
Elementar lhe dar com a falta
Ser supremamente pessoal para ser coletivo
Ser supremamente pessoal para ser coletivo
Não é essa a magia da grande arte?
Os artistas devem procurar a inspiração no seu âmago
Quanto mais se aprofundarem em seu âmago, mais universais serão
O artista é um universo
O artista é um universo
O artista é um universo
O artista deve ser ouvido 
E libertado
sempre
Isso é da Nirley
Será que ele queria voar?
Não é isso que todos queremos afinal?
Sair voando pela janela
Sair voando
Como ícaro
Que não se conteve em ter asas
Quis voar alto
Bem alto
Perto do sol
E o sol derreteu suas asas
E ele caiu
Morreu
Porque ícaro, querido ícaro
o homem não pode voar
Ele não se conforma
Com essa tristíssima contingência
Eu o entendo.
Voar alto
Bem alto
Sair da terra voando
E olhar todo o universo
No silêncio que deve ser lá em cima
E depois voar mais alto e ver a nossa galáxia
Bem pequenininha brilhando perto das outras
Que também o são.
E voltar
Depois de ser do coração.
E como voltar a ser depois de vir do coração?
Medo de morrer
Ela me respondeu
Quando eu disse que tinha medo na hora dormir.
Medo de morrer
Mas se a alma é separada do corpo
Morrer desse corpo
Pra perambular com alma pelo espaço pode ser bom.
Eu não quero morrer
Eu quero ficar viva
Mas e o desejo incontrolável de voar?

Da descoberta que a Terra gira em torno do Sol até o convívio com OVINIs


O teatro é uma arte que se utiliza da homem para falar dele mesmo. Uma metáfora do ser humano. De todas as artes talvez a mais humanista.  A perspectiva sensível do homem sobre o mundo é a matéria-prima que imprime uma simplicidade essencial: a figura do ator (há quem discorde). É um pouco contraditório partir do universo como tema central da construção de uma peça, tema tão factual e amplo (o maior de todos), acreditando estar no homem a essência do teatro. É da curiosidade pela descoberta, ou da capacidade de inventar que este projeto surge. Existe um começo do universo? O que aconteceu antes dele? De onde ele surge e para onde ele vai? Qual é a natureza do tempo? Chegará ele a um fim? Desde o princípio o homem busca estas e outras respostas percorrendo um longo caminho de certezas provisórias, mentiras prazerosas, políticas de poder, fé, desenvolvimento científico e técnico...  Enfim, toda teoria é crível até que se descubra o contrário. O que importa não é a verdade universal mas todas as mentiras sinceras que explicam nossa necessidade de compreender o universo. Quando Galileu prova que a Terra gira em torno do Sol e colabora com a criação da Física Moderna, ele quebra com a crença no Modelo Ptolomaico que persistia desde a Grécia Antiga. Acima de tudo, quando Galileu consegue comprovar através da observação, o modelo de Copérnico, e se livrar das esferas celestes e religiosas de Ptolomeu considerando o infinito, ele oferece ao homem a autonomia da descoberta, dando credibilidade ao seu modo de "olhar" o universo. No Renascimento surgem a figura do artista e as academias que diluem as fronteiras entre ciência e arte. A criação da perspectiva linear possibilita a reprodução da ideia de imitação da natureza, presente na Cultura Clássica. O espaço é uma experiência. A perspectiva é um pensamento sobre o espaço, e surge a partir da matemática: Uma forma de representação da realidade exterior; A representação do visível a partir de um ponto de vista individual e fixo; A produção de uma ilusão de profundidade. No momento que o homem se percebe perdido no espaço muito maior que o esperado, ele investe na sua própria inteligência, complexidade e solidão. No espaço infinito qualquer ponto pode ser considerado o centro. Leonardo da Vinci busca no "Homem Vitruviano" a relação de perfeição do corpo do ser humano com a grandiosidade do universo. O que vamos buscar? A relação desse tema com nosso dia-a-dia, dos pequenos acontecimentos às grandes coincidências. Vamos investigar, criar, inventar... As grandes teorias de conspirações envolvendo OVINIs; a aleatoriedade do horóscopo; a lua como assunto para se aproximar de alguém; ônibus espaciais; novas experiências com tempo/espaço; o nascimento de uma estrela; viagem no tempo; universos paralelos; realidade virtual; nebulosas... As associações mais humanas e sensíveis que pudermos fazer com o tema. 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Homem Vitruviano

O pintor italiano Leonardo da Vinci (1452 – 1519) é tido como uma das mais importantes figuras do Alto Renascimento. Embora tenha sido conhecido principalmente como pintor, era também cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. Dentre os desenhos deixados por Leonardo, o Homem Vitruviano (ou o Homem de Vitrúvio)tornou-se um ícone cultural. Trata-se de um desenho encontrado em seus diários, feito por volta de 1490, que mostra o traçado e as proporções entre as diversas partes do corpo humano. Durante o Renascimento, muitos artistas, arquitetos e tratadistas puseram-se a interpretar os textos vitruvianos, para fazer novas representações gráficas, mas nenhum deles conseguiu combinar de forma harmoniosa e matemática as proporcionalidades do corpo humano e a solução da quadratura do círculo, conforme propunha Vitruvius.  Dentre os desenhos que foram feitos, o de Leonardo da Vinci tornou-se o mais famoso e o mais difundido.


Duas diferentes posturas, formadas pela combinação das posições dos braços e das pernas.  A figura humana com braços e pernas em cruz está contida dentro do quadrado. Enquanto aquela com braços e pernas abertos está contida no círculo. A postura em cruz delimita os lados do quadrado, enquanto que a postura com pernas e braços abertos delimita o círculo. A área das duas figuras geométricas é igual. O umbigo da figura humana é o seu real centro de gravidade que continua imóvel, embora pareça se mover. Examinando o desenho como um todo, pode-se notar que a combinação das posições dos braços e das pernas forma quatro posturas diferentes: braços e pernas em cruz, braços e pernas abertos, braços em cruz e pernas abertas, braços abertos (para o alto) e pernas unidas.
A razão de tê-lo chamado de Homem Vitruviano baseia-se no fato de que o arquiteto romano Marcus Vitruvius Pollio (I a. C.) apresenta no seu tratado sobre arquitetura, composto por uma série de dez livros, uma descrição sobre as proporções do corpo humano, usando como unidade de medida o dedo, o palmo e o antebraço, o que o levou a acreditar que um homem com as pernas e os braços abertos encaixaria perfeitamente dentro de um quadrado e de um círculo – figuras geométricas perfeitas. E, se o corpo humano fosse representado ao mesmo tempo, dentro das duas figuras, o umbigo, centro gravitacional da figura humana, coincidiria com o centro das duas figuras geométricas.
Vitrúvio tanto fez a sua apresentação em forma textual, como através de desenhos. Mas, com o passar dos anos, a descrição gráfica se perdeu, enquanto a obra passou a ser copiada. O homem descrito por Vitrúvio apresenta-se como um modelo ideal para o ser humano, cujas proporções são perfeitas, segundo o ideal clássico de beleza. Ele já havia tentado encaixar as proporções do corpo humano dentro da figura de um quadrado e um círculo, mas suas tentativas foram falhas.
O desenho do Homem Vitruviano reafirma o grande interesse de Leonardo da Vinci pela arte e ciência. No conceito da Divina Proporção, tão procuradas nas obras do Renascimento, dá-se a busca e definição das partes corporais do ser humano.
Para a filosofia a figura mostra mais que as proporções perfeitas, pois está repleta de símbolos, a figura presente na obra está dentro de um círculo e de um quadrado que tem relação com a numerologia sagrada, o círculo como símbolo da divindade e o quadrado símbolo da manifestação na matéria a partir da divindade.
A figura humana está totalmente integrada à estas figuras geométricas, demonstrando a relação do homem com o universo, o macrocosmo aqui como o universo e o microcosmo como o homem totalmente integrados.
A figura na posição de braços abertos longitudinais ao corpo formam uma cruz latina, símbolo da verticalização do homem em busca do sagrado com um trabalho na matéria (horizontal).
Desta maneira o Homem Vitruviano é um pentagrama, que é um símbolo estelar de cinco pontas representando o homem e sua relação também com os quatro elementos (terra, água, ar e fogo) que por sua vez tem relação com os quatro corpos da Personalidade e a cabeça como o elemento racional da Tríade que traz o poder de discernimento adquirido pela obtenção de conhecimento.













































Marcus Vitruvius Pollio descreve no terceiro livro de sua série de dez livros intitulados De Architectura as proporções do corpo humano masculino. Eis algumas:
  • O comprimento dos braços abertos de um homem (envergadura dos braços) é igual à sua altura.
  • A distância entre a linha de cabelo na testa e o fundo do queixo é um décimo da altura de um homem.
  • A distância entre o topo da cabeça e o fundo do queixo é um oitavo da altura de um homem.
  • A distância entre o fundo do pescoço e a linha de cabelo na testa é um sexto da altura de um homem.
  • O comprimento máximo nos ombros é um quarto da altura de um homem.
  • A distância entre a o meio do peito e o topo da cabeça é um quarto da altura de um homem.
  • A distância entre o cotovelo e a ponta da mão é um quarto da altura de um homem.
  • A distância entre o cotovelo e a axila é um oitavo da altura de um homem.
  • O comprimento da mão é um décimo da altura de um homem.
  • A distância entre o fundo do queixo e o nariz é um terço do comprimento do rosto.
  • A distância entre a linha de cabelo na testa e as sobrancelhas é um terço do comprimento do rosto.
  • O comprimento da orelha é um terço do da face.
  • O comprimento do pé é um sexto da altura.
  • Face -> do queixo ao topo da testa = 1/10 da altura do corpo.
  • Palma da mão -> do pulso ao topo do dedo médio = 1/10 da altura do corpo.
  • Cabeça -> do queixo ao topo = 1/8 da altura do corpo.
  • Base do pescoço às raízes do cabelo = 1/6 da altura do corpo.
  • Meio do peito ao topo da cabeça = 1/4 da altura do corpo.
  • Pé = 1/6 da altura do corpo.
  • Largura do peito = 1/4 da altura do corpo.
  • Largura da palma da mão = quatro dedos.
  • Largura dos braços abertos = altura do corpo.
  • Umbigo = centro exato do corpo.
  • Base do queixo à base das narinas = 1/3 da face.
  • Nariz -> da base às sobrancelhas = 1/3 da face.
  • Orelha = 1/3 da face.
  • Testa = 1/3 da face.

O teatro é humanista

Para entender o contexto em que Galileu vivia, e em que medida sua descoberta aboliu um modelo de mundo que persistia à séculos, foi preciso pesquisar a passagem histórica da Idade Média para a Idade Moderna.

Humanistas, foram a vanguarda da grande transformação cultural chamada Renascimento. Quando nos referimos ao Renascimento temos em mente, de maneira geral, o período que vai de meados do século XIV até o final do século XVI. Ou seja, é um movimento histórico relativamente breve que marca o início da chamada Idade Moderna e é caracterizado pelo progresso técnico e científico, por maior conhecimento da filosofia e da literatura antigas e maior amor pela beleza.

O termo Renascimento se refere ao retorno ideal às formas da Antiguidade Clássica enquanto verdadeira fonte da beleza e do saber. A idéia de Renascimento pertence à própria época e seus protagonistas. Apesar do retorno ao passado clássico, o movimento conhecido por esse nome nada possuía de nostálgico. Era, na verdade, portador de um acentuado sentimento de superioridade em relação aos séculos precedentes, acompanhado de atitude de substancial otimismo diante do presente e do futuro. A idéia vinha acompanhada de “trazer à luz”, subtrair ao esquecimento a grandiosidade da cultura do passado, sepultada pelas “trevas” da Idade Média. A visão da Idade Média como um abismo cultural foi instaurada pelo Renascimento. As pesquisas do último século desmistificaram a idéia de “Idade das Trevas” e se dedicaram a identificar os inúmeros vínculos entre a Idade Média e o Renascimento. Os resultados alcançados puderam demonstrar que ao longo dos séculos, não propriamente de trevas, a tradição clássica não havia desaparecido completamente. Em ruptura com a tradição medieval, as artes visuais procuraram reencontrar as mais harmoniosas proporções do corpo humano e redescobrir em tais medidas humanas a alma da arquitetura antiga, capaz de dar às novas construções o ritmo musical recomendado por Platão.

O movimento humanista foi fundado na literatura. Francesco Petrarca (1304-74) havia sido o primeiro a contrapor as imagens de trevas e luz, ao confrontar o presente medieval cristão com o esplendor cultural do passado clássico. Não obstante fosse problemática a identificação do passado pagão com as “luzes” e da era cristã com as “trevas”, a ideia, cultivada por um grupo de literatos, vingou. Ainda na primeira metade do século XIV, Giovanni Boccaccio (1313-75), genial discípulo de Petrarca, utilizava o esquema “luz e trevas” de análise em louvor da arte de Giotto. Para afirmar a evolução da pintura em relação ao passado, o aspecto mais evidente era observar a excelência com que esta se tornara capaz de imitar a natureza; no caso, a natureza humana. O elogio de Boccaccio ao naturalismo de Giotto, além de sobrepor a luz do presente às trevas do passado medieval, revelava uma sensibilidade diferente em relação às imagens pictóricas e sua representação do mundo visível. As palavras do poeta e precursor  do Humanismo indicavam a existência de um público interessado em formas mais complexas de apreciação das artes a que o novo tipo de artista era chamado a satisfazer.

A imitação é um conceito crucial para todo o Renascimento, o ponto de interseção por onde passam os diferentes elementos do projeto Renascimento. O conceito portanto comporta uma vasta gama de significados, que absolutamente não excluem a ideia de originalidade. Para a cultura do Humanismo, a imitação era fundamento de um sistema moral e estético que tinha como referência os valores da Antiguidade, suas virtudes públicas e suas grandes realizações. Em oposição à imobilidade hierática das figuras da arte bizantina, os humanistas estavam interessados na representação dos “afetos” – como eram designadas as atitudes e expressões. Esse novo naturalismo era a essência da inovação Renascentista e construía o principal desafio para a nova arte. A doutrina estética do Renascimento se referia, por um lado, à imitação da natureza , à imitação do real; por outro à imitação do modelo, imitação da Antiguidade Clássica. Imitar não significava copiar, mas assimilar princípios; indicava limites e oportunidades para a invenção. As obras produzidas não deviam ser iguais, mas parecer com os modelos tal como o filho dos pais, segundo exemplo da época.


Na primeira metade do Quatrocentos, o conceito de imitação correspondia à reprodução o mais possível perfeita da realidade e estava ligado a uma prática pictórica determinada a recriar a perfeita ilusão do visível. As figuras de Masaccio na capela Brancacci, em Florença (1424-1425) são exemplos da nova orientação. A anatomia e a perspectiva linear eram consideradas diciplinas essenciais: à primeira era destinada à construção dos corpos conforme a natureza; a segunda à construção do espaço. As regras da perspectiva renascentista – inventadas em 1415 por Brunelleshi, possibilitam a criação do espaço tridimensional sobre a superfície plana, resultando em uma imagem muito semelhante à percepção que o olho humano possui da realidade espacial e dos objetos nela colocados.


Depois dos primeiros tempos mais pragmáticos, dedicados às novidades da prática pictórica capaz de desenvolver a ilusão do real, a avaliação totalmente externa da beleza logo dará lugar a justificativas filosóficas. Aristóteles é considerado principal fonte para a interpretação da imitação como mímeses da natureza. Na Poética, a arte é espelho da natureza concebida como comportamento humano. O tratado De pictura (1433), de Alberti, texto fundamental para todas as formulações sobre arte dali em diante, já contemplava a idéia de eleição ao lado da de imitação, isto é, do livre-arbítrio do pintor, que, posto diante da natureza, podia não apenas retratá-la, mas eleger seus aspectos mais belos. A busca dessa "natureza ideal" era identificada pelos humanistas na frase de Aristóteles sobre a imitação: imitar a natureza não como era, mas como deveria ser.

O início do Renascimento havia sido marcado por certa dissolução das divisões rígidas da vida intelectual, fazendo com que a arte e a ciência compartilhassem um mesmo terreno. A geometria e a matemática estavam impregnadas por idéias filosóficas. A mateática possuia lugar de preeminência enquanto ciência singular, capaz de conduzir ao conhecimento abstrato das relações e das medidas, fazendo com que estas assumissem significados além do nível racional. Por meio da matemática, o espaço arquitetônico, por exemplo, prestava-se a analogias universais astrológicas e teológicas a que estavam sujeitos formas e números. Tais analogias punham em comunicação o macrocosmo e o microcosmo. O antigo simbolismo dos números e a harmonia numérica das esferas celestes remetiam aos preceitos pitagóricos retomados por Plotino e os neoplatônicos da Antiguidade. Tais ideias sobre o misticismo dos números - que nunca desapareceram totalmente - são redescobertas e desenvolvidas pelos filósofos do Renascimento com grande influência sobre as artes.

O processo de promoção social das artes se desenvolve em sintonia com a celebrada centralidade que a ideia de individuo teve para o Renascimento. O novo protagonismo adquirido pelo artista acompanha um processo de secularização da cultura no qual as realizações e os feitos terrenos dos homens passavam a ser altamente considerados e louvados. No decorrer do Quatrocentos, surgem diversos livros no gênero "homens ilustres" como o de Vilani, sobre os notáveis de Florença. O elogio do indivíduo e o culto da fama se estendem da literatura para a escultura, a pintura e a arquitetura.

(Fragmentos do texto “o projeto do renascimento” de Elisa Byington)